terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Alavanca de Arquimedes

Triathlon. Cada porção de ar que se inspira e cada grama de alimento que se ingere tem uma conseqüência no seu perfeccionismo, muito procurado e nunca atingido. É algo inescapável; é o corpo; é você.
Nos últimos anos tenho pensado muito sobre esta lógica. Em Platão encontramos: "... a ginástica ocupa-se do que se altera e perece, porquanto trata do crescer e definhar do corpo (República, 521e)", ou ainda, em 412a: "Para estas duas faces da alma, a corajosa e a filosófica, ao que parece, eu diria que a divindade concedeu aos homens duas artes, a música e a ginástica, não para a alma e o corpo, a não ser marginalmente, mas para aquelas faces, a fim de que se harmonizem uma com a outra, retesando-se ou afrouxando até onde lhes convier."
Numa auto-reflexão, vejo que me encontro incapaz de escapar do esporte. As restrições físicas e mentais que o esporte impõe à uma vida mais integral são de tal ordem que, paradoxalmente, só encontro liberdade no próprio treinamento! Trata-se de uma existência unidimensional. O esporte, que por muitos anos tem sido minha arma (contra a rotina pesada do trabalho e as tensões diárias), vem se transformando aos poucos num obstáculo na realização integral do meu verdadeiro ser.
Entretanto, não se muda de uma hora para outra, nem se pode abandonar o que é intrinsicamente bom. Ao mudar, muita falta me fará aquela sensação de mente liberta, em transe e abençoada pelo escape às nossas mentes que o exercício proporciona. Mas essa é a questão: não posso contar com este escapismo que me desvia da mudança que é necessária na busca da minha pequena verdade pessoal.
Aos poucos, creio, vou tentar conciliar o esporte com a música. Certamente nela encontrarei outro equilíbrio, como descrito nos livros da antiguidade. Talvez vocês vejam nisso o despertar de um não-espiritualista ou mesmo pura pretensão de um cara meio maluco que quer adicionar ainda mais outra rotina à sua ocupada vida.
Eu admiro demais o triathlon. É um esporte fantástico cheio de pessoas fantásticas e onde o entusiasmo é contagioso. Não posso, contudo, ser um escravo das minhas paixões, incapaz de me concentrar em mim mesmo. Para dispor de uma força é preciso não se surpreender por ela a ponto dela dispor integralmente de você. O entusiasmo propagado pelo triathlon tem produzido uma corrente tão energética e tão magnética, que têm arrastado pessoas e organizações, algumas vezes exaltadas além da medida, por serem impressionáveis, radicais, mal informadas ou volúveis. E essas, por sua vez, adicionam mais energia à corrente - infelizmente com alguns resultados negativos, como algumas mortes, acidentes ou a ganância de certas instituições nos mostram.
A questão chave é equilibrar, é ser excêntrico para combater a força atrativa estabelecida por esta corrente. Ser excêntrico é ter outro centro, outro ponto fixo para se concentrar e projetar sua própria força. Não era o que Arquimedes queria dizer quando ansiava por um ponto fixo e uma alavanca com as quais moveria o mundo? Isso é agir autenticamente. Saber lidar com as reações que surgirão em você mesmo e nos outros é a chave de saída desta corrente.

Para tal, basta-nos reflexão e alguma mudança de hábitos.

1 comentários:

  1. Olá Fernando
    Parabéns pelo Blog
    Um grande abraço
    Esquilo

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